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A longa viagem de Splin e As aventuras dos três primos
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RESENHA

Por Lauro Junkes
Doutor em Teoria da Literatura (PUCRS)
Professor Titular da UFSC, tendo atuado no Curso de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Literatura, até 2010, quando do seu falecimento.

A civilização moderna, com sua urgência apressada em tudo aprender e obter, com sua imposição de uma visão crítico-ideológica engajada, com sua desenfreada competição baseada no princípio de que fica irremediavelmente para trás quem não passa outros para trás – essa “civilização” de ”progresso” e de “desenvolvimento” está exterminando todas as manifestações de vida espontânea e natural, busca ganhar tempo às custas da perda da condição humana, suprimindo infelizmente a despreocupada “ingenuidade” da infância.

Li, sem pressa, os livros de Marília Maciel e inundou-me irresistivelmente essa convicção. A jovem Marília, nascida em Curitiba em 1976, que vive e atua no magistério em São Bento do Sul, escreveu seu primeiro livro quando aluna da 7ª séria do 1º grau. Tem dois livros publicados: As aventuras dos três primos (1988) e A longa viagem de Splin (1990), ambos editados em Curitiba pela gráfica Vicentina. As personagens criadas pela autora contradizem este mundo em que vivemos, saturado de racionalidade, ambição que não justifica a quem quer chegar à violência destruidora. 

 As aventuras dos Três primos registra o retrato de Merlin, Larri e Aline, que estudam e brincam na maior ingenuidade natural, em um clima de compreensão e cordialidade fora do “natural”. Na casa de Dona Maura, na chácara do Sr. Alex, no “bosque das borboletas”, no convívio da escola, com a fada Adelaide, com Roboaldo e o disco-voador, com Jonatan e a magia dos voos no Raio de Sol – todos personagens da história -, os episódios, fatos e aventuras do livro ampliam um universo de sadio e harmonioso convívio. Podem os incidente parecer sem importância ou sentido para o adulto pragmatista, mas constituem aspectos decisivos para a criança que vive o aqui-e-agora com intensidade espontânea, sem buscar razões profundas ou motivações sofisticadas. Ao adulto racionalista pode igualmente parecer que tudo está arranjado e bonito demais e fora dos padrões do realismo cotidiano; entretanto, o mundo da infância aqui está captado em sua naturalidade. A criança vive e não precisa de especulações ou razões!

  As surpresas agradáveis, o relacionamento harmonioso e a energia positiva mantêm-se constantes, ao longo do texto. Nós, adultos, demasiadamente condicionados por dúvidas, hesitações ou recusas, talvez tenhamos resistência em compartilhar com tal universo de beleza, em que a vida flui do constante gesto espontâneo, da permissão normal que valoriza e engrandece, sem precisar recorrer a frios e poderes frustrantes. Por que não aceitar o lado belo e agradável da vida, o influxo positivo, a magia do coração, se assimilamos com tanta facilidade a violência e a negatividade?

  A longa viagem de Splin mantém idêntica harmonia fraterna, mesmo contágio positivo, uma atitude construtiva para a qual não há desânimos nem derrotas. A personagem central agora é um pinguim que viaja inesperadamente da Antártica para o Rio de Janeiro, percorre diversos “reinos”, conhece o sequestro e a solidariedade, o amor e o ciúme, as amizades e as traições.

  Splin encarece a bondade, a competência e o senso de harmonia. Sua odisseia pelo reino animal registra que, não obstante as exceções negativas, nele prevalece sempre uma organização positiva, um espírito democrático, uma corporação produtiva entre os animais antropomorfizados de modo a falarem, sentirem, trabalharem e mercantilizarem à semelhança do homem (ou seria uma projeção do homem no animal, o homem ansiando ver o humano pelo menos tão equilibrado como o animal?). O enredo não incorre, pois, em realidade fantasiosamente utópica, pois nem tudo é perfeito e harmonioso, mas existe sempre uma disposição permanente, uma força positiva para superar obstáculos e restabelecer o equilíbrio.

Splin representa o espírito solidário, a responsabilidade inflexível, o irmão sempre amigo que se adapta a todas as circunstâncias. Em toda parte contribui para uma vida melhor, para uma convivência mais sadia; é amigo sempre benquisto, pois não impõe nunca superioridade prepotente, mas coloca-se na disposição natural de servir em qualquer situação. Sua figura, seja ela imponente ou de qualidades superiores, sempre mantém atitudes de simplicidade, simpatia e disponibilidade. Não conhece reinvindicações pessoais privilegiadoras, ambições desmedidas, ódios ou vinganças de caráter maléfico – o que em princípio pode parecer idealmente perfeccionista mas se torna aceito com naturalidade. Daí impor-se sua simpatia, de modo a contagiar sempre o pequeno leitor.

Na literatura de Marília, o faz de conta da história de fada a antropomorfização animal se fundem tão naturalmente com o cotidiano da criança e com o universo familiar, fraterno, harmonioso e construtivoque não se admite o questionamento sobre a possível alienação. Não se pode alienar o que ressalta os mais puros sentimento humanos de alegria, otimismo, harmonia, confraternização. É fascinante constatar que ainda existe vida que extrapola em situações naturalmente belas, alegres e espontâneas, capaz de desfazer qualquer obstinação racionalista.

Naturalmente, a literatura de Marília não satisfaz a todos os leitores deste mundo de convulsões e consciências reinvincadoras. Se cada escritor cria seus leitores, Marpilia os busca no mundo infantil ainda não contaminado pelo vírus da ganância, da superioridade, da sofisticação e da luta competitiva.

Quase incompreensivelmente, cria ela narrativas bastante longas, superando uma centena de páginas, para a criança sempre ameaçada pela pressa do nosso tempo sem tempo. Mas, certamente a criança que se embrenhar neste universo de fantasias límpidas preservará a mais sadia condição humana e a escala mais harmoniosa de valores na convivência fraternal. Em meio a tantos negativismos, corrupção opressora e falsidade ideológica (quem não engana é enganado, quem não rouba é roubado, quem não passa outros para trás é ele mesmo passado para trás!!!), é sumamente gratificante deparar-se com tal universo de equilíbrio, otimismo e natural bem-estar como o da literatura de Marília Maciel. Que a alma espontânea da criança nunca se deixe sufocar pela racionalidade friamente desencarnada e pela “civilização” artificial. Existe ainda lugar para a criança em nossa sociedade? Em você? Preserve-se esse lugar e essa condição que, sem dúvida, estão ameaçados de extinção.

JUNKES, Terezinha Kuhn (Org.). A literatura infantojuvenil catarinense na perspectiva de Lauro Junkes. Florianópolis: Copiart, 2012. p. 184-188. 


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