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O dia em que Felipe sumiu
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RESENHA

Por Tânia Piacentini
Fundadora e coordenadora da Biblioteca Barca dos livros
2017

Felipe faz a ponte

(O DIA EM QUE FELIPE SUMIU)

A estreia de Milu Leite na literatura se dá com um livro para jovens leitores, O dia em que Felipe sumiu. O enredo é simples e poderia ser resumido em breves linhas: Felipe, um adolescente preocupado com o meio ambiente, desaparece após começar a fazer testes sobre a qualidade da água da lagoa perto de sua casa. Procurado pelos pais, que nada sabem desta pesquisa, a turma de amigos, a polícia e o cachorro da família, é “encontrado” quase dois dias depois, como vítima de um rapto. Esta é uma história que um leitor, principalmente o ingênuo e voraz, lê em pouco tempo, tal o ritmo que a autora imprimiu à narrativa, porém ganhou contornos e nuances tão especiais que o leitor sensual saberá apreciar ao longo da leitura.

Já no princípio do livro, o leitor surpreende-se com a originalidade do texto, já que o narrador se dirige diretamente a ele, convidando-o a construir o cenário da história: “Imagine uma casa bonita, de paredes brancas e janelas azuis. Imagine a sala dessa casa, um lugar arrumado e acolhedor. Imagine agora um sofá amarelo, daqueles bem fofos, cheio de almofadas e...”. Porém, logo uma primeira interrupção corta o ritmo da descrição que começava a ser feita e cria o primeiro suspense:

Opa, mas hoje o sofá está sem as almofadas. Elas estão esparramadas pelo chão. Esqueça essa história de ‘um lugar arrumado e acolhedor’. A casa normalmente é assim, mas hoje não é o que se pode chamar de um dia normal. A sala está uma bagunça, há livros por todos os cantos e, no sofá amarelo, no lugar das almofadas, encontramos confortavelmente deitado um menino.

O espaço, tempo e personagens da narração começam a ser delineados pela voz sedutoramente cúmplice do narrador, que em nenhum momento vai esconder do seu leitor que se trata de uma ficção, de uma história que se está inventando, e quem é o artífice dessa invenção. O narrador vai contando a história e, ao mesmo tempo, mostra os recursos empregados na construção. Através de um diálogo constante com o leitor fica clara a técnica, a carpintaria de construção do texto. Mas, na verdade, não há diálogo, o narrador é “machadiano” até a medula, ele quer ter o leitor consigo e monologa todo o tempo, construindo também seu interlocutor! Um jogo inteligente e bem-humorado, que exige a cumplicidade do leitor sensual, alguém disposto a se deixar envolver, conscientemente, na teia do narrador.

E que teia! Muitas vezes o fio passa também para os personagens, um deles sendo o interlocutor direto do narrador ou um “terceiro” na conversa:

Mas que diabos se passa na cabeça do nosso amigo Farelo? Por que ‘anotação secreta’? O Felipe não sabia que ia ser seqüestrado, portanto não tinha razão para pensar em esconder suas anotações de ninguém! Esquece essa história de coisas secretas, Farelo! Esse tipo de pisada na bola é bem típico de filmes malfeitos. E, desculpe a falta de modéstia, de malfeito aqui nessa história não tem nada.

O narrador, seguro de si, dá bronca quando necessário e não tem medo de se mostrar, mesmo que possa ser considerado impertinente e vaidoso. E esta é outra qualidade do texto, a linguagem é bem dosada, encaixando diferentes padrões e jargões de grupos e turmas. Os adolescentes falam com as gírias do momento, os policiais com o seu vocabulário especializado e o narrador se diverte esclarecendo umas e outras para personagens e leitores.

Falei que o narrador era “machadiano” e se ainda restasse alguma dúvida sobre a influência do Bruxo do Cosme Velho nessa obra de Milu, quem torna explícita a admiração da autora é o Capitão Teixeira. Em conversa com a mãe de Felipe, cita Quincas Borba e Mr. Bones para justificar a inquietação de ambos sobre a possibilidade de os cães “entenderem”, sobre a inteligência dos animais. E no relatório final sobre o caso, indeciso entre manter a linguagem oficial, com o devido distanciamento emocional, ou deixar-se impregnar pela evidência do papel destacado do cão Tobias na busca do amigão desaparecido, vai até a estante de livros, retira o que procura, encontra o trecho cuja lembrança o persegue desde o começo. Depois da leitura, que o leitor também faz, o capitão se convence e dá a Tobias as honras a que fez jus em sua noite de glória: o cão foi fundamental para o desfecho feliz. Tal como seu ilustre ancestral, Tobias também “filosofa” e permite ao narrador boas reflexões sobre a relação entre homens e animais.

Mas outras ferramentas também se insinuam na técnica da construção e elas podem ter sido emprestadas pelo cinema, pois há cortes, mudanças de planos e de cenários, que imprimem um ritmo especial à narrativa. A pista aparece no sobrenome da “garota que brilha”, a apaixonante filha da francesa Françoise, a Dora Bazin Truffaut. Aliás, esse mesmo recurso serve para brincar com o futebol – o Farelo se chama Guilherme Nazário –, e com a literatura: o livro lido por Felipe é o Manual de detetives do Delegado Fonseca.

À sofisticação e bom humor da autora se juntam à qualidade e ao arrojo no uso de cores e traços pelo ilustrador, e mais todo o cuidado editorial necessário para a feitura gráfica de um belo e atraente objeto-livro.

Preciso, porém, terminar fazendo a distinção entre os dois tipos de leitores que apresentei, o ingênuo e o sensual. Tomei emprestada esta classificação de um refinado crítico literário que anda meio esquecido, num ensaio justamente chamado Do Leitor[1]. Nele, Augusto Meyer faz uma reflexão sobre a própria história de leitura, a sua formação literária – e isto, se não me engano, por volta de 1947, bem antes, portanto, da explosão atual do tema! –, e nos mostra como todos nós, quando jovens ou iniciantes na prática da leitura, somos leitores ingênuos, por um ou por muitos dos exemplos que arrola. Quem já não se identificou imediatamente com o herói ou com o protagonista da história, procurando “o reflexo de nossos sentimentos imediatos, desfazendo a distinção entre fantasia e realidade”? Quem já não “devorou romances, saltando capítulos inteiros para chegar ao fim e saber de uma vez qual foi o prêmio do herói, se o moço casou com a moça e o dedo de Deus castigou o mau”, pergunto eu, tentando resumir a caracterização feita pelo crítico? Não resisto em acrescentar aqui um trecho literal do ensaio, desistindo de resumi-lo, tal a variação de exemplos e porque não quero diluir o prazer que se pode ter indo diretamente ao texto do escritor e crítico literário gaúcho:

O que predominava no leitor monstruoso que já fomos um dia, era a delícia de criar, acima da realidade, um ambiente de refúgio, onde tudo palpitava de uma vida mais intensa. A larva dos desejos, dos incertos e impuros desejos, vestia as asas dos sonhos, e abrir o livro era liquidar os cuidados importunos, cortando qualquer nó de um só golpe, ao simples virar das folhas.

Se para o leitor ingênuo “pouco importa o livro como obra de arte, pouco importa a impressão literária, o sabor do estilo, a voz do narrador”, o leitor sensual, aquele que se forma com o gosto permanente da leitura, descobre que mais importante que conhecer o destino da intriga é a viagem em si: “viajar é mais interessante do que chegar”. Cabe, pois, e por fim, uma explicação mais abrangente do que seria a sensualidade da leitura:

O leitor sensual cultiva a pausa consciente e lúcida, desperta por prazer de análise, interrompe o autor em pleno vôo para apalpar-se cautelosamente, esclarecendo as origens de sua emoção e medindo a parte de intérprete que lhe cabe. Vive mais na ambiência imediata, embora seja capaz de uma abstração mais delicada. A bela imagem, o conceito fino são bons pretextos para fechar o volume e sorrir – um pouco a si mesmo, um pouco ao fantasma que anima o texto.

Daí a importância de O dia em que Felipe sumiu, destaque na abundante produção brasileira recente para o público infantojuvenil exatamente pelo que mais se pede a uma obra literária: originalidade no tratamento de temas, estilo próprio e domínio técnico. Sem abrir mão dessas qualidades, o livro faz a ponte propiciando uma boa dose de prazer numa leitura descompromissada, de bom entretenimento, e disponibilizando muitos recursos para um leitor mais exigente. O que pode ser traduzido também como confiança no jovem leitor, de uma autora sem medo de exigir capacidade maior de entrega ao universo da boa ficção. O adorável “leitor monstruoso”, que todos fomos e, muitas vezes, deliberadamente voltamos a ser, merece esse respeito.

LEITE, Milu. O dia em que Felipe sumiu. Ilustração de de Jan Limpens. São Paulo: Cosac Naify, 2005.



[1] Do livro Á sombra da estante, porém está também presente em Textos Críticos, deAugusto Meyer, organizado por João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 1986.


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