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Apenas um Curumim
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RESENHA

por Eliane Debus
Doutora em Teoria da Literatura - UFSC
2012

A estrutura narrativa de Apenas um Curumim, de Werner Zotz é feita em alternância através do discurso direto dos dois protagonistas, o de Jari (o menino-índio) e o de Tamãi (o velho Pajé). Todo o discurso se dá por essas duas vozes narrativas. O índio que mantém sua cultura (o pajé) e o índio sem identidade (o curumim), únicos remanescentes de uma tribo que perdeu sua unidade cultural pelo contato com o homem branco. Tem-se, portanto, um texto tecido com o objetivo de dar voz ao "Outro" que ocupa, na maioria das vezes, um lugar marginal e silencioso no discurso oficial.

O espaço temporal da narrativa não é datado, mas percebe-se que é contemporâneo pelos meios de transportes referidos: aviões, caminhões, tratores. "Depois chegaram os pássaros barulhentos. Desciam num grande buraco aberto na mata. Da barriga dos pássaros saíam mais homens. E também coisas que caraíbas chamavam de caminhões e tratores". (ZOTZ, 1989, p.20)

Os índios em contato com o branco começaram a desejar aquela outra cultura: "E então os índios queriam ser caraíbas. Nossa pele é boa, bonita, protege contra o sol. Caraíbas são brancos, com pouquinho de sol ficam logo vermelhos e doídos. Daí o povo ficou com vergonha da pele". (ZOTZ, 1989, p.20).

As características físicas do Curumim são de sua gente, mas sua forma de pensar já está desculturalizada;  ele perdeu sua identidade. Pela voz do pajé vamos sabendo do processo de disseminação de seu povo;  a chegada do homem branco que se dizia dono da terra; o convite para permanecerem e ajudarem na plantação e as promessas de uma vida mais fácil. A tribo vai trocando seus hábitos, o cauim, "a bebida dos grandes Quarups", feita com amor pelas mulheres indígenas, é trocado pela cachaça. "Meu povo trocou caium por cachaça. E virou bêbado, fraco e triste. Muito triste" (ZOTZ, 1989, p.21). E, finalmente, após enterrar o último índio de sua tribo, sai com Curumim em busca de um lugar onde o índio possa ser livre.

Werner Zotz vai resgatar a palavra "experiência" no sentido de sabedoria, aquela verdadeira narrativa na qual Walter Benjamin esclarece sua dimensão utilitária: "seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida - de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos" e esclarece a dimensão deste conselho: “aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada" (BENJAMIN, 1994. p.200). Assim são os conselhos do pajé, não mascarados em prol das palavras proferidas em tom "educador", mas pelo viés da experiência prática que vai sendo apresentada ao Curumim pelo pajé Tamãi: na construção da ubá, no cozimento do peixe, nos rituais de morte que são também de vida.

O fenômeno lunar é utilizado pelo pajé para marcar o tempo passado e o tempo que está por vir. O tempo da sociedade capitalista intrinsecamente ligada ao progresso e à industrialização, confrontando-se com o tempo pré-capitalista da ótica indígena:

Não tem preço essa liberdade de folgar ou trabalhar ao gosto de cada um. E era isso que o povo do riso fazia. Aí veio o caraíba. E o nosso povo, com vontade de também ter o que branco tinha, ficou aflito na produção, que nem agora os brancos pobres. (ZOTZ, 1989, p.27)

O pajé Tamãi é o fio tênue que liga o passado ao presente. O velho, o passado auxiliando o menino, o presente, na construção do futuro; um futuro que não se liga à ideia de progresso, mas a uma visão utópica de volta à origem na reconquista, pelo Curumim, dos valores culturais indígenas, e ao mesmo tempo paradoxal, porque as novas terras, para onde Curumim segue viagem, também estão sob o domínio do homem branco:

Tamãi contou que, há muitas luas atrás, dois homens brancos vieram visitar nosso povo. Ele disse que eram caraíbas diferentes dos outros, que eram brancos e que também eram irmãos. Eles falaram que pro sul tem grande pedaço de terra onde homem branco, caraíba mau, não podia pisar. (ZOTZ, 1989, p.35)

Se em relação ao homem branco descrito pelo índio encontramos o arquétipo bem e mal, nas ações das personagens não encontramos o arquétipo dócil e selvagem cultuado no discurso oficial e nos textos infantis de períodos anteriores. O pajé não é dócil, mas também não é selvagem;  é, sim, um homem que luta para preservar sua cultura; portanto não é um ser idealizado. Na travessia pelo rio, em busca da "terra nova", o velho pajé rebela-se e estoura uma cerca de arame.  Curumim mente ao homem branco para proteger o pajé:

Foi aí que Tamãi, antes sentado quieto, a cabeça baixa, se levantou e falou que ele tinha estourado a cerca. Nunca tinha visto Tamãi assim, nem nunca pensei que, tão velho, tivesse tanta força e coragem. O branco quis brigar com ele, levantou o rifle como se fosse tacape para bater na cabeça do velho, mas Tamãi foi mais rápido que cobra no bote, bateu nele, segurou ele e depois amarrou ele na árvore. Agora o caraíba está lá, preso. (ZOTZ, 1989, p.47)

Apenas um Curumim traz ao leitor uma reflexão sobre o esgotamento da cultura indígena, uma obra que não se limita ao adjetivo "infantil"/“juvenil”, pois é acima de tudo literatura, literatura acessível à criança e a todos que buscam olhar o outro como diferença e não espelho de si mesmos. A narrativa torna-se, assim, uma representação de um passado-presente que se esfacela, e aponta para a possibilidade de recriação de uma memória.


Referências

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In_____. Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios Sobre Literatura e História da Cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet; prefácio Jeanne Marie Gagnebin. 7. ed. -São Paulo: Brasiliense, 1994. 

ZOTZ, Werner. Apenas um Curumim. 14 ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1989.


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