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Histórias para boi não dormir
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RESENHA

por Yara Xangô da Silva Espíndola
Acadêmica do Curso de Letras - UFSC
2012

O livro Histórias pra boi não dormir, de Eloí Elisabet Bocheco, é composto por três histórias bastante inusitadas para boi e ninguém dormir, pois, se dormir, provavelmente perderá algum detalhe importante. São elas: “Ora vai, ora vira...”, “Uma vez uma mulher”, e “Tempo de figos”. Apesar de serem histórias distintas, elas possuem uma característica marcante em comum – a fantasia. Objetos ganham vida e loucuras acontecem com as personagens, que interagem constantemente com o ambiente e com o lugar onde se encontram.

“Ora vai, ora vira...” conta a aventura de uma moça que resolve sair com seu chapéu, num dia de ventania. Como era de se esperar, o chapéu foi levado pelo vento... Mas o que ela não sabia é que o seu chapéu, ao ser tocado, tinha o poder de se transformar, magicamente, em outro objeto. Ao longo da história, o chapéu vira besouro, cachopa de flores amarelas, bombom, enfim, como diz a moça: “Tanto vira e desvira não há quem aguente!” (BOCHECO, 2008, p. 7) Com o objetivo de recuperar uma bacia azul esmaltada, de estimação, a jovem moça se aventura numa casa abandonada. Por fim, o chapéu vira bola de fogo com ciúmes da tal bacia e, em seguida, vira um cacto!

É curiosa a participação da narradora em “Ora vai, ora vira...”. Ela surge como sendo a dona “daquela” voz, que saiu “de trás das palavras, onde [...] estava escondida, para espiar a moça...” (BOCHECO, 2008, p. 9) Ao final da história, volta para o seu lugar de origem – por trás das palavras – e, como se perdesse um detalhe da própria história, não sabe o porquê de a velha casa e a estimada bacia terem desaparecido.

A segunda história, intitulada “Uma vez uma mulher”, segue o mesmo ritmo da primeira, repleta de estranhezas fantásticas. Narra a desventura de uma mulher que deixou seu balde cair num poço onde crescia uma árvore. Qual não foi sua surpresa quando percebeu que a árvore crescera até o começo do poço, trazendo, em seus galhos, o tal balde. Mais surpreendente ainda é o que havia entre os galhos da árvore, cheia de vida, ao longo da história: ninhos de sabiá; ameixas, cujos caroços viravam peixes; andorinhas, que, fazendo verões, deixaram a “árvore cheia de sóis” (BOCHECO, 2008, p. 15); dentes-de-dragão, que, quando plantados pela mulher, transformaram-se em pés-de-trovão – que trovejaram! Finalmente, “na copa da árvore, pastavam os cavalinhos do céu” (BOCHECO, 2008, p. 16), que foram parar na toalha da mulher, enquanto a árvore e o poço mudavam de lugar.

“Tempo de figos”, terceira e última história, pode ser considerada a mais encantadora. Um homem vislumbra sua figueira, esperando as flores se transformarem em figos. Quando os figos estão prontos, senta-se embaixo da figueira para saborear os frutos. Até que o homem flagra “um bicho de pernas compridas, grande focinho e penas abundantes” (BOCHECO, 2008, p. 18) devorando os últimos figos da árvore. O homem é levado pelo bicho e cai na linha do horizonte e de lá percebe um pássaro que voa aos pedaços. Em seguida, o homem cai em um ninho de avestruz, onde acontece uma chuva de ovos, que escorrem pelos seus pés. Salvo por uma raposa, finalmente consegue chegar em casa, perto de sua figueira. Lá, o olho de lua é devorado pelos figos que, por sua vez, são comidos pelo homem. A última parte da história narra perfeitamente como essa confusão afetou o dono da figueira: “Desse dia em diante, tornou-se um homem, às vezes enluarado, às vezes aluado.” (BOCHECO, 2008, p. 20)


BOCHECO, Eloí Elisabet. Histórias pra boi não dormir. Il. Semíramis Paterno. Juiz de Fora: Franco Editora, 2008.


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