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Os segredos do baú
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RESENHA

Por: Rosilene F. Koscianski da Silveira
Doutoranda PPGE-UFSC
Bolsista do Programa de Apoio a Manutenção e ao Desenvolvimento da Educação Superior – FUMDES
2012

Os segredos do baú (Mercado Aberto, 1991), publicado também em Os Segredos do Baú e Outros Contos (Peirópolis, 2007), de Deonísio da Silva é uma narrativa tecida com as sutilezas e peculiaridades da autobiografia. Deonísio da Silva nos leva a passear por caminhos de chão batido, pela roça, pelo pasto, pela beira do rio; além de nos levar também a conhecer o linguajar maroto e os costumes e valores das famílias que viveram ou ainda vivem longe do movimento da cidade grande. Remete-nos a um tempo que parece ter ficado para trás.

Pelo olhar de um menino bisbilhoteiro, podemos sentir a curiosidade aguçada pelos segredos guardados nos livros do baú do avô. Aqueles “livros de capa dura e grossa, meio amarelados, mas com um cheirinho bom” (p.3). Os flagrantes do avô ao apanhar o menino cheirando os livros assinalam, de forma intensa, não apenas a provocação pelo desejo de ler e saber o que ali está escrito, mas, sobretudo, o prazer e a valorização da experiência da leitura como fonte de explicação daquilo que ainda não podemos compreender. 

Os segredos do baú se revelam na história do menino Toninho que vivia no sul do Brasil. Um garotinho que ainda não sabia ler, mas ficava sentindo o cheiro dos livros de seu avô, que estavam guardados dentro de um baú. Quando seu pai anunciou que ele iria para a escola, aconteceu o que nunca deveria acontecer com criança alguma: seus dois irmãos morreram afogados no rio próximo de casa. O menino pequeno não entendia o que estava acontecendo, via o desespero e as lágrimas de sua mãe e de seu pai. Ele se perguntava: “Por que meus irmãos finavam assim no começo da vida? Por que não podiam esperar o fim final, aquele que vem depois de tudo pronto? [...] Com quem brincar de esconde-esconde, se agora eles se escondiam para sempre?” (p.p.12-13). Sua ida à escola foi adiada. Ao invés de roupas coloridas, vestiram-no de preto. E quando o luto acabasse, deveria alternar as roupas de um e de outro irmão para nele integrar o que dos dois ainda restava.

Depois de um tempo, o menino pôde ir para a escola, aprendeu a ler e escrever, mesmo assim seu avô ensinava aquilo que ele não aprendia na escola. Lia os livros da biblioteca da escola e os do avô, guardados no baú. Devido à grande perda de seus irmãos, a família mudou-se de Santa Catarina para o Paraná, e depois foram para o Rio Grande do Sul. Sempre levou consigo as lembranças da primeira professora. Foi lendo os livros do baú de seu avô que Toninho adquiriu o gosto pela leitura e tornou-se um leitor do mundo. 

Toninho observava o movimento de mudanças. Famílias iam e vinham, andavam em círculo. “Grupos inteiros moviam-se de cá pra lá, sempre a procura da terra. O homem, um bicho da terra tão pequeno – eu lia em Camões. Tão pequeno, mas tão astuto, tão inquieto, andava sempre à procura do que sabia e do que não sabia” (p. 22).  O menino cresceu sabendo que nos livros a gente pode consertar o mundo. Ali está presente a esperança de um universo diferente, muito melhor! No baú do avô estão guardados alguns dos segredos que Toninho já consegue compreender. Para o menino que se fez gente em companhia dos livros, ler é ver de novo, com cuidado e sem pressa, as coisas vividas na vida, que nem sempre nos dão o tempo necessário para pensar. É ter a certeza de que o mundo está escrito por aí, mas antes de poder lê-lo é preciso treinar com os livros. 


SILVA, Deonísio da. Os segredos do baú. Il. Marco Cena. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.

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